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A caminho do Missouri (2)




31 de Outubro. Dia de Halloween perfeito. O tempo estava tão miserável em Chicago que não temi ficar em casa. Vento, frio, neve, a primeira do ano, pelo menos no meu bairro. Decerto não seria importunado por trick-or-treaters, são sempre uma maçada. Não fiquei em casa porque tive de ir ao coração do Missouri, novamente. Adoro a estrada, particulamente este trecho da U.S. Route 54, à saída de Atlas, uma pequena localidade perto da fronteira de Illinois com a cidade de Louisiana, no Missouri, do outro lado do Mississippi. Perdi a conta ao número de vezes que fiz  viagem semelhante. Mas tenho a certeza de que, por esta rota, fui apenas quatro vezes.

Sempre notáveis são as cores do Outono no Midwest, que atingem o pico nesta altura. É pena que a distância não permita fazer-lhes justiça.

A caminho do Missouri


o espanto que me fez parar.

Califórnia


11 de Julho

1. Em rota para a Califórnia, escala breve no Aeroporto Internacional de Salt Lake City, no Utah,  situado a 1288 metros de altitude, rodeado de montanhas. Pareceu-me que nos picos mais altos ainda alvejava alguma neve. Depois de quatro anos a viver nas flatlands do Midwest, fiquei ligeiramente embevecido.

2. Noite em San Ramon, cidade-satélite de Oakland e de São Francisco. Casa de Maralyn K,  de 85 anos. Uma amiga sua casou com um português e, depois de visitar Portugal, trouxe-lhe de lá um Galo de Barcelos. Maralyn não sabia que o seu hóspede deste fim-de-semana também seria português. Ficou felicíssima com a coincidência e, ainda mais, com o parentesco entre o nome do galo e o meu.

3. Maralyn contou-me histórias da sua família e do brasão que tem pendurado na sala de estar. Contou-me também os contactos que teve com portugueses na região de São Francisco e, nas primeiras décadas da sua vida, na de Los Angeles.

4. Tive parentes chegados a viver na Califórnia durante 31 anos. Ainda tenho cá parentes afastados, a maior parte desconhecidos. Quem é o açoriano que não tem?

5. Horas antes, no vôo entre Salt Lake City e Oakland, a mulher sentada ao meu lado também me contou as experiências que tem com portugueses na Califórnia. Vive em Oakland, num bairro maioritariamente português. Citou-me os nomes de família que conhece, com precisão. Aqui não há enganos: Silva, Pereira, Rocha, Simões, Mendes, Cardoso, Soares, Coelho.

Notas da viagem transatlântica n.º 8


1. Estou no aeroporto de Amesterdão, a caminho de casa, à espera de dar a última pernada, penosa, que isto já deu muitas horas de assento desconfortável aqui e ali. Um desamparo. O que custa é só a última pernada. Uma escala que dura tantas horas como a travessia de quase meia esfera. Calhou. Nem sempre é assim. As raparigas loiras já perderam a graça e as sardentas já não dão consolo nenhum. Um homem ciranda, come, recosta-se, senta-se de todas as maneiras, para voltar a cirandar e a sentar-se. Venho pontualmente para a porta de embarque para descobrir que há atraso, de uma hora. Os controladores de tráfego aéreo de França (disseram-me) estão de greve. Muita gente em terra, outros com grandes atrasos. Consolo? Consolo. A última pernada, seja em Amesterdão, em Bruxelas, ou em Londres, costuma ter um momento delicioso. Junto à última porta de embarque antes de chegar a Lisboa encontro portugueses. Que há portugueses à espera de embarcar num vôo que vai para Portugal não surpreende, e é até expectável (essa palavra horrível que se usa nas televisões). O que dá gosto é reconhecer os portugueses antes de os ouvir falar, se é que os ouço. Perguntaram-me uma vez como distingo portugueses num sítio qualquer só de olhar. Não sei explicar bem. Sei que talvez também me reconhecem a mim. Creio que todos reconhecem os seus, e mais alguns.

2. Vamos finalmente para o avião. A gente arruma-se e afivela-se para ouvir o comissário de bordo dizer, acanhado, que nos mandaram entrar para ficarmos à espera duas horas lá dentro, sentados e afivelados. O céu francês não há-de valer esta demora.

3. Se calhar, tudo isto tem uma explicação metafísica. Newton postulou que é da natureza dos corpos em repouso tender para o repouso, a menos que uma força lhes contrarie a inércia. Mas também é da natureza dos corpos, especificamente dos corpos animados, que permanecer em repouso contra a vontade e levar uma carga de porrada são duas coisas que se parecem muito uma com a outra.

Amesterdão, no decurso de viagem entre a América do Norte e Portugal, na manhã do dia 22 de Maio de 2018.

Notas da viagem transatlântica n.º 6


1. Gosto de viajar. Gosto mesmo muito de viajar. Antes de me mudar para os EUA, viajei bastante entre os Açores e o Continente português, e duas vezes entre o Continente português e as Ilhas Britânicas. Não se pode dizer que tenha sido um viajador. As viagens entre os Açores e o Continente são viagens decerto. Mas essas viagens que se fazem dentro do mesmo país carecem de espantos, o que as torna menos viagens. A distância, a língua, a cultura, a música, a arquitectura, as rodovias, os jeitos das pessoas, os matizes das tezes, sei lá… ou tudo isso. Nas viagens transatlânticas, tudo muda muito ou um pouco em poucas horas.

2. Hoje é a sexta vez que estou por sobre o Atlântico para atravessá-lo todo. E gosto disto. Gosto muito. Hoje o gosto é ainda maior. Daqui por dois dias começa um congresso sobre Lutero em Lisboa, onde falo. A gravidade dos 500 anos das 95 teses entusiasmaram alguns dos nossos académicos para trazerem a Portugal Lutero, essa figura interessantíssima.

Sobre o Atlântico, em viagem da América do Norte para a Europa. Zona indecisa entre o dia 6 e o 7 de Novembro de 2017.

Notas da viagem transatlântica n.º 2


Vi o pôr-do-sol e o nascer-do-sol em menos de quatro horas. Subimos tão a Norte que praticamente beijámos a Gronelândia. A proximidade do pólo fez-me ver, mesmo em plena noite, sempre luz ao lado esquerdo, enquanto a lua dominava a escuridão densa e profunda ao lado direito. Nunca tinha visto do ar a lua à mesma altura da minha cabeça.

Sobre o Atlântico, em viagem da América do Norte para a Europa. Zona indecisa entre o dia 25 e o 26 de Maio de 2016.