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Quando me perguntam se Portugal fica no hemisfério sul
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A caminho do Missouri (2)
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31 de Outubro. Dia de Halloween perfeito. O tempo estava tão miserável em Chicago que não temi ficar em casa. Vento, frio, neve, a primeira do ano, pelo menos no meu bairro. Decerto não seria importunado por trick-or-treaters, são sempre uma maçada. Não fiquei em casa porque tive de ir ao coração do Missouri, novamente. Adoro a estrada, particulamente este trecho da U.S. Route 54, à saída de Atlas, uma pequena localidade perto da fronteira de Illinois com a cidade de Louisiana, no Missouri, do outro lado do Mississippi. Perdi a conta ao número de vezes que fiz viagem semelhante. Mas tenho a certeza de que, por esta rota, fui apenas quatro vezes.
Sempre notáveis são as cores do Outono no Midwest, que atingem o pico nesta altura. É pena que a distância não permita fazer-lhes justiça.
Sempre notáveis são as cores do Outono no Midwest, que atingem o pico nesta altura. É pena que a distância não permita fazer-lhes justiça.
Preston Bradley Hall
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Chicago, Illinois (Maio, 2019).
Cúpula de vidro Tiffany, desenhada por J. A. Holzer, no hoje edifício do Centro Cultural de Chicago, inaugurado em 1897 para albegar a primeira biblioteca central da cidade. Actualmente aqui oferecem-se concertos musicais de entrada gratuita. Consta que a cúpula tem cerca de 11.5 metros de diâmetro e 30.000 peças de vidro.
A caminho do Missouri
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Califórnia
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11 de Julho
1. Em rota para a Califórnia, escala breve no Aeroporto Internacional de Salt Lake City, no Utah, situado a 1288 metros de altitude, rodeado de montanhas. Pareceu-me que nos picos mais altos ainda alvejava alguma neve. Depois de quatro anos a viver nas flatlands do Midwest, fiquei ligeiramente embevecido.
2. Noite em San Ramon, cidade-satélite de Oakland e de São Francisco. Casa de Maralyn K, de 85 anos. Uma amiga sua casou com um português e, depois de visitar Portugal, trouxe-lhe de lá um Galo de Barcelos. Maralyn não sabia que o seu hóspede deste fim-de-semana também seria português. Ficou felicíssima com a coincidência e, ainda mais, com o parentesco entre o nome do galo e o meu.
3. Maralyn contou-me histórias da sua família e do brasão que tem pendurado na sala de estar. Contou-me também os contactos que teve com portugueses na região de São Francisco e, nas primeiras décadas da sua vida, na de Los Angeles.
4. Tive parentes chegados a viver na Califórnia durante 31 anos. Ainda tenho cá parentes afastados, a maior parte desconhecidos. Quem é o açoriano que não tem?
5. Horas antes, no vôo entre Salt Lake City e Oakland, a mulher sentada ao meu lado também me contou as experiências que tem com portugueses na Califórnia. Vive em Oakland, num bairro maioritariamente português. Citou-me os nomes de família que conhece, com precisão. Aqui não há enganos: Silva, Pereira, Rocha, Simões, Mendes, Cardoso, Soares, Coelho.
Entretanto
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A médica diz-me que no outro dia pensou em mim.
Esteve a ver um documentário sobre Espanha.
What's in the freezer?
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Ontem poderia ter sido o dia mais frio de sempre em Chicago. Não foi. Nos 148 anos de registo metereológico nesta cidade, consta que a temperatura mais baixa foi registada no dia 20 de Janeiro de 1985, por volta dos -33º C. O prognóstico de o dia mais frio de sempre estar a chegar animou-me bastante. Os memes do tipo "Mais frio do que a Antárctica" que proliferavam no FB não me impressionaram, mas sinto-me grato por sentir na pele 30 graus negativos.
Escolas e serviços públicos estiveram encerrados, muitos negócios também, ou fecharam cedo. Wheaton, ao fim da tarde, estava transformada numa cidade fastama. Caminhei alguns quarteirões sem ver gente até entrar no Starbucks, ali à esquina, para uma bebida quente, rodeado de dois ou três pares de resistentes.
Ao longo do dia, fui várias vezes à rua para caminhar porque há coisas boas que só nos acontecem a primeira vez. Pode não ter sido o dia mais frio de sempre em Chicago, mas sem dúvida foi o dia mais frio da minha vida. Já por isso valeu a pena.
Canções de Natal (1)
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De Gloria Shayne Baker (música) e Noël Regney (letra) em 1962, aqui na versão de Bing Crosby de 1963 que a popularizou, fez as delícias da minha viagem de ontem à tarde entre Fort Wayne, Indiana, de volta à Chicagoland enquanto ouvia rádios locais.
Trovoada, chuva e Al-Ria
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Pôs-se escuro em Fort Wayne às quatro da tarde. Chove torrencialmente. É dia e é já noite. É Verão e é já Outono. Ou assim parece. Questionei. Dizem-me ser normal. Convite a um tinto e à introspecção. Abro um Al-Ria, do Algarve, que não me lembro de ter bebido em Portugal. De todos os lugares, encontrei-o por acaso na estante de promoções de uma liquor store do Midwest.
The funniest things I get to deal with
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(1)
“Where are you from?”
“I´m from Portugal.”
“Oh, great! I have been to Spain once. I enjoyed it!...”
“I am glad you did.”
(2)
“Hey, how do you say this in Spanish?”
“I don't know.”
(3)
“Have you met So And So this morning?”
“No.”
“He's from your hemisphere.”
“Uh! Where from?”
“Brazil.”
(4)
“Are you from Portugal?”
“Yes, indeed.”
“So you speak Spanish, right?”
“No.”
(5)
“Hey! How's Spain?”
*smile*
(6)
“How’s the weather down there in Portugal?”
“What's down there?”
Pelo natal de 2015: considerações mais ou menos desconexas
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Não há nada que me apeteça dizer pelo Natal deste ano, ou, talvez, haja. É que não pensei antecipadamente, e agora já é a véspera, tarde de mais para pensar com vagar ou em demasia. A página branca é uma coisa inquietante – é a angústia e a surpresa. Mas deixar o dia sem uma palavra, por pequena que seja, é, nesta altura, o menor tributo que poderia prestar a um dos dois pontos maiores da celebração cristã deste lado da eternidade. Talvez chegue um dia em que escrever não seja, para mim, tão importante, e que tudo o que pense, viva ou diga se reporte à esfera da intimidade. No entanto, não o antevejo breve. Há uma relação com a página branca que me atrai e aflige, talvez um conflito visceral com o vazio; não, contudo, com o silêncio, porque a música é, principalmente, um fenómeno mental.
O Natal.
Que não o passo com a minha família não é, para
mim, novidade. A novidade é que o passo com uma família que é como se fosse minha.
Conheci-a há dez anos, nunca mais a vi e parece que nada se perdeu entretanto. A
história é longa, e não me apetece encurtá-la, nem explicá-la. Por que encurtar
a beleza? Não sei bem para que isso serve. Um resumo padece de pouca utilidade
se não estiver a serviço de uma expansão qualquer.
Depois de quase nove horas de estrada, estou
no coração da América. Lugar pacato e bonito, paisagem rural e ligeiramente
montanhosa. Verde que conserva alguma intensidade, porque este ano é ano de El
Niño, que perturba o curso normal da natureza por estas bandas. A namorada veio
visitar, parece um bocado de Portugal aqui sentado ao meu lado. Desde que chegamos
ao coração da América, há dois dias, participei num velório, funeral e enterro onde a cor
dominante foi o vermelho (de Natal) e o choro uma comoção menor. É que aqui há
quem acredite mesmo na vida eterna: a morte é uma separação, sim, mas não uma
fatalidade, a alegria do Natal maior do que a tristeza, já que o Menino-Deus
não nasceu em vão. Nasceu para morrer para que ao morrermos não morramos. Não
haveria o Natal sem a Paixão e, mesmo que o houvesse, seria tão vazio como a
página branca que me aflige. A vida que não conseguimos segurar nos dedos Jesus
no-la assegura. E talvez não haja melhor para os que ficam do lado de cá da
eternidade quando outros partem do que enfrentar a morte em alturas festivas assim,
Natal e Páscoa, porque nunca, como nelas, quase tudo nos recorda isto.
Mais uma hora e estarei na igreja a cantar
hinos de Natal, a ouvir a história do nascimento de Jesus contada por crianças. Amanhã de manhã, culto de Natal em duas paróquias onde se reúnem os santos em Cristo. Logo mais, ceia e troca de presentes. Tudo em comunhão com a família eterna. Jesus nasceu para que tenhamos vida e a morte não nos seja a maior desgraça. Ela não é o fim para o que crê no Menino-Deus.
Feliz Natal a todos.
(Ao som da magnífica Missa para a Manhã de Natal, do primeiro compositor sacro para a Igreja Luterana.)










