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Leituras de Verão (5)

Dava Sobel, Galileo's Daughter: A Historical Memoir of Science, Faith, and Love (New York: Bloomsbury, 2011)
Primeira publicação 1999

Martin Marty, Martin Luther (New York: Viking, 2004)

Mário de Carvalho, Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, 12.ª ed. (Lisboa: Caminho, 2008)
Primeira publicação 1994

Richard Zimler, The Gospel According to Lazarus (London: Peter Owen, 2019)
Primeira publicação 2016

John Baillie, A Diary of Private Prayer (New York: Charles Scribner's Sons, 1949)
Primeira publicação 1936

Fernando Pessoa, The Complete Works of Alberto Caeiro (New York: New Directions Paperbook, 2020)
Ed. Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari; Trad. Margaret Jull Costa e Patricio Ferrari

Fernando Pessoa, A Little Larger Than the Entire Universe: Selected Poems (New York: Penguin Books, 2006)
Ed. e trad. Richard Zenith

Vergílio Ferreira, Aparição (Lisboa: Círculo de Leitores, 1988)
Primeira publicação 1959

James M. Kittelson, Luther the Reformer: The Story of the Man and His Career (Minneapolis: Ausgsburg, 1986)

Margery Kempe, The Book of Margery Kempe (Oxford: Oxford University Press, 2015)
Trad. Anthony Bale

Teolinda Gersão: Lançamento de Alice e Outras Mulheres

A querida amiga Teolinda Gersão estará ao vivo aqui para o lançamento do livro Alice e Outras Mulheres, uma antologia de contos da autora organizada por Nilma Lacerda. A professora de Literatura Portuguesa Marcia Manir também participará na conversa moderada por Taty Leite. O livro colige textos de Teolinda sobre mulheres que, tendo sido publicados ao longo de 40 anos, são agora publicados pela primeira vez no Brasil, pela Oficina Raquel. O evento acontecerá amanhã, às 17h, horário de São Paulo. Para assistir, inscreva-se no link acima.

John Donne: Death's Duel

"There we leave you, in that blessed dependency, to hang upon him, that hangs upon the cross. There bathe in his tears, there suck at his wounds, and lie down in peace in his grave, till he vouchsafe you a resurrection, and an ascension into that kingdom which he hath purchased for you, with the inestimable price of his incorruptible blood."

Assim termina o último sermão de John Donne, pregado em 25 de Fevereiro de 1631, no White Hall, perante o rei e a família real. A solenidade litúrgica era a primeira Sexta-feira na Quaresma. Donne subiu ao púlpito tão fragilizado pela doença que a congregação suspeitou que não conseguiria proferi-lo, mas, nos diz o editor da sua obra completa no século XIX (Henry Alford), que, então, uma vontade férrea energizou o fébil corpo para cumprir a tarefa sagrada que lhe havia sido confiada.

O sermão foi publicado no ano seguinte, sob o título Death's Duel, or, A Consolation of the Soul, against the dying Life, and living Death of the Body. O frontispício ainda nos diz que a casa real veio a estimar que, com ele, Donne na verdade pregou o sermão do seu próprio funeral. Em verdade, a doença mostrou-se fatal, e Donne acabou por morrer um mês depois, no dia 31 de Março.


* O ano 1630, no frontispício, é, na verdade 1631 no calendário actual. Na Inglaterra de então segui-se o calendário juliano, cujo ano civil começava a 25 de Março. 

Imagem: British Library.
Citação: Henry Alford (ed.), The Works of John Donne with a Memoir of His Life, vol. 6. London: John W. Parker, 1839, p. 298.

Um mal nunca vem só


Quaresma


Este ano comecei a Quaresma cedo. Arreliado com o facto de o Advento e o dia de Natal me terem passado praticamente despercebidos, decidi aclimatar-me à Quaresma cedo, antes que múltiplas ocupações me distraissem de leituras apropriadas.

Foi assim que no fim dos doze dias do Natal e no início da Epifania li paulatinamente o pequeno livro The Passion Pilgrimage (1961), uma colecção de nove sermões do pregador de Detroit Erwin Kurth, que nos pinta as cenas da Paixão com um misto de detalhe histórico e imaginação ao passo que nos leva em peregrinação entre os jardins das oliveiras e da resurreição:

"The itinerary will be from garden to garden. We shall begin in a garden of anguish, and end in a garden of hope. In between, we shall witness what great things God has wrought in our behalf." (p. 17)

Talvez fruto do seu tempo, estes sermões demonstram grande preocupação com a situação histórica e material de fundo – mais do que gostaria de encontrar em textos devocionais. O registo que materializa essa preocupação nem sempre facilita a beleza de expressão, mas aqui deixo alguns passos onde a elaboração poética relampeja forte. 

"[T]he bloody sweat of Jesus came from an utter faintness of the soul. 'My soul is exceeding sorrowful, even unto death.' [...] His eyes did not weep tears. His whole body wept tears. And the tears were as blood." (p. 20)

Aqui uma interpretação da morte que é simultaneamente exacta teologicamente e elegante:

"Sin is death begun; death is sin completed." (p. 21)

A descrição do encontro dos olhos de Pedro nos olhos de Jesus depois de ele o ter negado três vezes nos faz imaginar o que esses olhos diziam:

"Peter looked up, and as he looked, he saw, up there on the portico of the palace, the Lord turning and looking at him. Yes, in all the assembly, the Lord looked upon Peter. Those eyes! They were the eyes of God." (p. 53)

Por fim, a surpresa, o espanto, que tantas vezes nos escapa, de que um dos bandidos na cruz se convertesse naquela hora em que ver Jesus como Senhor e rei exigia mais fé do que nunca, uma fé que transporta montanhas e as atira no mar, que vê o impossível na ordem do possível. Este episódio é um hino à fé como dádiva da graça divina.

"[The penitent thief] could see only a man impaled on a dagger of wood, stripped of clothing, dignity, and earthly power, marred by stripes and thorns; rendered helpless by nails, ropes, and a wooden pin; forsaken by His disciples and rejected by a people who might conceivably have qualified as subjects of the 'kingdom'; yapped at by the leaders and their followers; scorned, ridiculed, reviled; suspended between heaven and earth as though belonging to neither. And yet the thief dared to say, 'This is my Lord and King.' 'Lord, remember me when Thou comest into Thy kindom.' What marvelous insight! What towering faith!" (pp. 86-7)

A resposta de Jesus não podia esperar:

"Today, as soon as thy soul leaves its earthly tabernacle, 'thou shalt be with Me in paradise.' I promise this. I certify it with a 'Verily.' Wouldest thou ask for more? To be with Me is paradise. Paradise does not extend higher or wider or deeper or farther than that."  (p. 90)


Leituras de Verão (4)


por ordem aproximada de leitura.

Primeira Epístola de S. Pedro.

Segunda Epístola de S. Pedro.

C. S. Lewis, The Abolition of Man or Reflections on Education with Special Reference to the Teaching of English in the Upper Forms of Schools (1943).

A. G. Sertillanges, The Intellectual Life: Its Spirit, Conditions, Methods (1921).

Jon Bonné, The New Wine Rules: A Genuinely Helpful Guide to Everything You Need to Know (2017). Ilust. María Hergueta.

Abel Barros Baptista, E Assim Sucessivamente (2015).

Fernando Armellini e Giuseppe Moretti, Tinha Rosto e Palavras de Homem: Um Perfil de Jesus (1998).

Epístola aos Hebreus.

Jane Austen, Pride and Prejudice (1813).

Martinho Lutero, Explicação do Pai Nosso (1519).

Livro dos Salmos.

Homero, Odisseia.

Leituras de Verão (3)


Com atraso partilho a minha lista de leituras do Verão passado. Uma lista como esta vale só o que vale – e apenas como sugestão.

Miguel Tamen, Erro Extremo (2017).

Hermas, O Pastor (séc. II).

Dias de Melo, Vinde e Vede (1979).

Joel Neto, Meridiano 28: O Poder Redentor das Grandes Histórias (2018).

Nuno Costa Santos, Às Vezes É um Insecto que Faz Disparar o Alarme (2012).

Agustina Bessa-Luís, Estados Eróticos Imediatos de Sören Kierkegaard (1992).

Stendhal, O Vermelho e o Preto (1830).

Martin Luther, Only the Decalogue is Eternal: Martin Luther’s Complete Antinomian Theses and Disputations (1537-1540).

Nuno Costa Santos, Céu Nublado com Boas Abertas (2016).

Mark Granquist, Lutherans in America: A New History (2015).

Helmut Thielicke, The Silence of God (1962) [selecção de textos de Die Lebensangst und ihre Überwindung (1954)].

Ambrose Bierce, The Devil’s Dictionary (1911).

John W. Kleinig, Grace Upon Grace: Spirituality for Today (2008).

Livro do Apocalipse.

Livro do Levítico.

Epístola de S. Paulo aos Gálatas.

Livro de Isaías.

Apresentação do livro "A Grande Rutura"


A Paulinas Editora preparou este convite. Apareçam!


Está a chegar "A Grande Rutura: Olhares cruzados sobre Lutero e a Reforma protestante"



Recebi por correio, há dois dias, o livro sobre Lutero e a Reforma que escrevi junto com outros autores.

Nele poderão encontrar os seguintes capítulos:


1. Martinho Lutero: o homem e a obra – Miguel Barcelos

2. A legitimação da autoridade – Rui A. Costa Oliveira
3. O ministério profético da teologia – Porfírio Pinto
4. “Creio na santa Igreja cristã” – António J. F. Canoa
5. Um dom de Deus à congregação – Julia Bogado
6. Protestantismo e protestantismos. Rios vários de um imenso mar – Timóteo Cavaco
7. Comércio de estereótipos. Jesuítas vs protestantes – José Eduardo Franco e Paula Carreira

O livro conta ainda com prefácio de José Eduardo Franco e posfácio de Eduardo Lourenço.

O lançamento será no próximo dia 9 de Outubro, às 18h, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade Aberta, aquando da conferência de imprensa e sessão de apresentação do Congresso Um Construtor da Modernidade: Lutero – Teses – 500 Anos.

Leituras de Verão (2)


Alguns dos livros que li neste Verão foram sugeridos por amigos num momento ou noutro ao longo do ano. A sua leitura foi, em primeiro lugar, o cumprimento de um dever moral. Qualquer uma dessas sugestões valeu a pena. Por isso, incluo-as aqui, sem distinção, como recomendação minha. No fundo, é para isso que acho que listas de livros servem: para extrair delas recomendações de leitura.

Os livros encontram-se aproximadamente na ordem em que os li – tanto quanto foi possível determinar. Não sou um leitor disciplinado; pego nos livros à medida que me apetece. Começo uns, leio outros, acabo os primeiros ou os segundos, quando já começo os terceiros, e por aí adiante. As datas que apresento correspondem ao ano da primeira publicação de cada um. 

Ray Bradbury, Fahrenheit 451 (1953).

Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900).

Fernando Pessoa, Odes de Ricardo Reis (1946).

Raul Brandão, O Padre (1901).

Camilo Pessanha, Clepsydra (1920).

Martin Luther, The Freedom of a Christian (1520).

Eça de Queirós, A Relíquia (1887).

Martin Luther, Pagan Servitude of the Church (1520).

António Nobre, Só (1892).

Sarah Bethany Nielsen, Take Care (2017).

Roland H. Bainton, Here I Stand: A Life of Martin Luther (1950).

Yann Martel, The High Mountains of Portugal (2016).

Martin Luther, Large Catechism (1529).

Jacinto Monteiro, Alguns Aspectos da História Açoriana, nos Séculos XV-XVI (1982).

Paul Althaus, The Ethics of Martin Luther (1965).

Malcolm Muggeridge, The End of Christendom (1980).

Martin Luther, Treatise on Good Works (1520).

Martin Luther, Simple Way to Pray (1535).

Livro de Jeremias.

Livro das Lamentações.

Livro de Ezequiel.

O Evangelho Segundo S. João.

Leituras de Verão


Listas de leituras são coisas estéreis em si mesmas. Quanto a mim, têm só estes dois usos: dizem a alguém de que é que alguém outro, em parte, é feito e podem servir como recomendações de leitura para quem as procura. Quem não deseja nenhuma dessas duas coisas considerará, com toda a razão, listas como esta coisas completamente inúteis. 

Os títulos que seguem, à excepção dos três últimos, encontram-se por ordem aproximada de leitura. As referências estão propositadamente incompletas porque quis que figurasse a data da primeira publicação. Naturalmente, não coincidem sempre com o ano da edição de que me servi.  

GERSÃO, Teolinda, Passagens (2014).

CULLER, Jonathan, Literary Theory: A Very Short Introduction (1997).

CAMÕES, Luis Vaz de, Os Lusíadas (1572).

PASCOAES, Teixeira de, Santo Agostinho (1944).

NETO, Joel, A Vida no Campo (2016).

ALMEIDA, Onésimo Teotónio, BRÁS, João Maurício, Utopias em Dói Menor: Conversas Transatlânticas com Onésimo (2012).

MELO, João de, Açores: O Segredo das Ilhas (2016).

LAU, Franz, Lutero (1966).

VILLARES, Artur, Lutero: As Portas do Paraíso (1980).

SANTO AGOSTINHO, Confissões (397-401).

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, The Little Prince (1943)

O Santo Evangelho Segundo S. Marcos.

Livro do Eclesiastes.

Livro dos Provérbios.

Aqui não se incluem leituras esparsas e parciais porque essas seria difícil referir.

“Martinho Lutero,” de Orlando Neves (notas de leitura)



(O que se segue são meras notas de leitura de um livro que encontrei por acaso em Agosto de 2013 num lugar insuspeito. Desde então nunca mais lhe tive acesso.)

Uma pequeníssima biografia por um homem de letras do nosso país. Texto fresco, predominantemente narrativo, com segmentos dialógicos. A narrativa não é linear; antes, há recurso a analepses e a prolepses. É um texto criativo. Neste Martinho Lutero, acompanhamos de forma muito resumida, e não sem intensidade dramática, alguns dos principais acontecimentos da vida do maior reformador da Igreja ocidental.

Orlando Neves apresenta-nos um doutor da Igreja determinado, culto nas artes, na retórica, na filosofia, no direito, na tradição eclesiástica e nas Sagradas Escrituras, o qual, enquanto frade da Ordem de Santo Agostinho, e durante os primeiros anos da Reforma, foi um filho devoto da Igreja Romana, um súbdito leal do papa e um zeloso, severo e escrupuloso cumpridor da regra da Ordem. Lutero, no entanto, desejoso de alcançar a certeza da salvação, não a encontrava em nenhum dos rigores a que se submetia; pelo contrário, vivia sobressaltado com a ideia de um Deus que exige perfeição do ser humano ao mesmo tempo que o condena pela sua inevitável imperfeição. Lutero, no mosteiro, desconhecia a graça de Deus até ter redescoberto o Evangelho que havia sido obscurecido pela Igreja medieval. O movimento da Reforma que se seguiu foi, em primeiro lugar, o conteúdo dessa redescoberta tornado público.

A narrativa de Orlando Neves acompanha alguns dos momentos-chave da vida de Lutero sem de maneira alguma esgotar o movimento que iniciou, ou o período dentro dele sobre que incide, ou mesmo os poucos momentos que apresenta. Este pequeno livro não tem a intenção de oferecer mais do que uma mera introdução criativa a Lutero e à Reforma num país que lhes tem dedicado pouca atenção, e é principalmente aí que reside o seu mérito. 

É, quanto a mim, notório que o autor não quis oferecer uma alternativa à biografia portuguesa de Lutero que lhe precedeu Lutero: As Portas do Paraíso, de Artur Villares (1980), que, sendo também um livro pequeno, goza de outros predicados. O livro de Orlando Neves é um livro inteiramente diferente do de Artur Villares, talvez escrito com um tipo de leitor diferente em mente.

Portugal em Ruínas


É […] um retrato implacável, terrível, este que aqui se sintetiza e que não pode deixar de sensibilizar e de compungir, até por ser uma realidade estendida a toda a paisagem construída do país. 
– Vítor Serrão, na Introdução ao livro de Gastão de Brito e Silva 


Imagens poderosas, que falam por si, de um património construído que cai em ruína de dia para dia pela acção dos elementos, por actos de vandalismo, por simples incúria e inércia humana ou pela degredação a que é votado pela insensibilidade da especulação imobiliária; estas são imagens-tipo, pois que o presente livro é uma antologia, não uma recolha exaustiva. O que aqui temos são belas fotografias, que resultam num belo livro. Deleitem-se e inquietem-se.