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Um mal nunca vem só


Emily Dickinson: "Prayer is a little implement"


Prayer is the little implement
Through which men reach
Where presence is denied them.
They fling their speech

By means of it in God's ear;
If then He hear,
This sums the apparatus
Comprised in prayer.

Deslocações para férias


Segundo notícia de ontem à noite do Açoriano Oriental, o Secretário da Saúde do Governo Regional dos Açores denuncia que há pessoas a exigir o restabelecimento de ligações aéreas nos Açores para poderem ir de férias. 

Explica que tal se tem vindo a registar depois de o Governo Regional ter autorizado, em casos excepcionais, algumas deslocações, nomeadamente de pessoas que, após terem deixado de estar em vigilância activa em uma ilha, foram autorizadas a regressar à sua ilha de residência.

O pedido de deslocações para férias é um caso típico de: deste ao meu vizinho, também tens de me dar a mim, mas melhor. Ou de: eu cá sinto-me bem. Que quer dizer: não vou contagiar ninguém nem ficar doente.

Aquando da notícia, havia 27 casos confirmados de COVID-19 nos Açores. Hoje, por esta altura, já foram confirmados 33. Os dados da Direcção-Geral da Saúde e da Organização Mundial da Saúde também não sugerem deslocações para férias.

Pico do COVID-19 em Portugal


Ministra da Saúde, hoje.

Citação da Bíblia 4: Isaías


For thus says the high and lofty One
     who inhabits eternity, whose name is Holy:
"I dwell in the high and holy place,
     and also with him who is of a contrite and humble spirit,
to revive the spirit of the humble,
     and to revive the heart of the contrite."

Isaías 57:15 (Revised Standard Version)

Inovação linguística


Acabei de ler num texto publicado há 8 horas:

"Mesmo de corentena vamos festejar."

Talvez aglutinação das palavras "corona" e "quarentena."

Achado na Net (3)



Sobre Documents of the Christian Church, 4.ª ed. (Oxford: OUP, 2011).

Uma versão protestante da famosa "bar joke"


Autor: Colby Jones. Fonte: SirColby.com.

Também esta árvore reverdecerá


Bannockburn, Illinois.

Coisas para fazer


O The New York Times reuniu uma lista de coisas para fazer durante a quarentena, que é actualizada todos os dias de semana. Para aceder, clicar aqui.

As sugestões vão de programas de TV e do cinema à culinária, à música e à literatura. Outras visam envolver toda a família, como é o caso dos jogos de tabuleiro. 

Algumas destas sugestões estão disponíveis para acesso imediato, mas muitas requerem a criação de uma conta no site do jornal. No entanto, para a maior parte das coisas não é preciso assinar e, portanto, o acesso é grátis.

Neste último grupo estão, por exemplo, uma lista de reprodução musical, uma selecção de música por parte dos críticos e outra de livros por parte de escritores.

Por seu turno, o The Guardian oferece uma lista de jogos de vídeo para, paradoxalmente, ajudar pessoas a socializar enquanto praticam distanciamento e isolamento social. Claro que a infelicidade seria que, para conectar-se com pessoas fora de casa, alguém se distanciasse dos que estão em casa. Contudo, para quem o isolamento social é absoluto, o recurso a tais jogos pode ser quase tão vantajoso como um telefonema de um amigo.

Imagens do estado de emergência, do Observador



Distância social


!
Autor: Clay Bennett, na edição de ontem do Chattanooga Times Free Press.


Frederico Lourenço: Latim em tempos de coronavírus


"A beleza absoluta existe. É a língua latina."

Frederico Lourenço, ontem, na estreia do seu recente sítio educacional no Facebook, Latim do zero – Página de Frederico Lourenço para a aprendizagem do Latim. 

Segundo Lourenço, haverá uma lição por dia e o curso seguirá o método da sua Nova Gramática do Latim.

Esta é uma excelente iniciativa com potencial para mitigar a ansiedade dos tempos.



Vírus chinês?



W. H. Auden: "Luther" (1940)


With conscience cocked to listen for the thunder,
He saw the Devil busy in the wind,
Over the chiming steeples and then under
The doors of nuns and doctors who had sinned.

What apparatus could stave off disaster
Or cut the brambles of man's error down?
Flesh was a silent dog that bites its master,
World a still pond in which its children drown.

The fuse of Judgement spluttered in his head:
"Lord smoke these honeyed insects from their hives.
All Works, Great Men, Societies are bad.
The Just shall live by Faith..." he cried in dread.

And men and women of the world were glad,
Who'd never cared or trembled in their lives.

COVID-19: psicologia de massas e o papel higiénico




De Hong Kong a Austrália, Portugal, Reino Unido, EUA, Canadá, etc., a compra desenfreada de papel higiénico provocada pelo pânico relacionado com o coronavírus parece não ter outra explicação senão através da psicologia de massas. (Em Hong Kong, há cerca de um mês, o pânico já era tal que papel higiénico foi roubado à mão armada.) Artigo da CNN no passado dia 9 dá cinco razões para o fenómeno. As redes sociais sem dúvida facilitam a mimetização de comportamentos e a propagação de pânico à escala global à velocidade da luz. Para uma pequena história de fenómenos semelhantes, clicar aqui.

No Business Insider pode ler-se uma não menos interessante descrição da situação sob uma perspectiva de mercado. Bruce Lee, na Forbes, diz o que toda a gente no fundo sabe: a procura desenfreada de papel higiénico não se fundamenta em recomendações de especialistas, nas entidades dos estados, nem no risco de que o papel higiénico escaceie durante a epidemia, mas nota como o tiro pode sair pela culatra: "this situation can be a bit like poop in a toilet that’s being flushed: a vicious cycle. If you see others hoard toilet paper, that may in turn may make you [sic] worried that panic, regardless of whether it is justified, will lead to actual shortages." Além do pânico geral, o problema é composto pela confusão entre escassez de um produto no supermercado e escassez na produção e/ou distribuição do mesmo produto. Esta última, que é a única que justificaria razoavelmente este tipo de procura, é um cenário que não se antevê. Entretanto, a escassez circunstancial de papel higiénico já fez disparar a venda de bidés. 

Por isso, o melhor mesmo é encarar a situação com algum humor. Isto é o que o jornal australiano North Territory fez no dia 4 de Março ao imprimir diversas folhas de papel higiénico no próprio jornal. Segundo um tweet do próprio, as vendas da versão impressa do jornal aumentaram em cerca de 17%. Para aligeirar a situação, também há que ver este excerto do Seinfeld:


Achado na Net (2)


Sobre Introducing Feminist Theology, de Anne M. Clifford (Maryknoll, NY: Orbis, 2005).

Quaresma


Este ano comecei a Quaresma cedo. Arreliado com o facto de o Advento e o dia de Natal me terem passado praticamente despercebidos, decidi aclimatar-me à Quaresma cedo, antes que múltiplas ocupações me distraissem de leituras apropriadas.

Foi assim que no fim dos doze dias do Natal e no início da Epifania li paulatinamente o pequeno livro The Passion Pilgrimage (1961), uma colecção de nove sermões do pregador de Detroit Erwin Kurth, que nos pinta as cenas da Paixão com um misto de detalhe histórico e imaginação ao passo que nos leva em peregrinação entre os jardins das oliveiras e da resurreição:

"The itinerary will be from garden to garden. We shall begin in a garden of anguish, and end in a garden of hope. In between, we shall witness what great things God has wrought in our behalf." (p. 17)

Talvez fruto do seu tempo, estes sermões demonstram grande preocupação com a situação histórica e material de fundo – mais do que gostaria de encontrar em textos devocionais. O registo que materializa essa preocupação nem sempre facilita a beleza de expressão, mas aqui deixo alguns passos onde a elaboração poética relampeja forte. 

"[T]he bloody sweat of Jesus came from an utter faintness of the soul. 'My soul is exceeding sorrowful, even unto death.' [...] His eyes did not weep tears. His whole body wept tears. And the tears were as blood." (p. 20)

Aqui uma interpretação da morte que é simultaneamente exacta teologicamente e elegante:

"Sin is death begun; death is sin completed." (p. 21)

A descrição do encontro dos olhos de Pedro nos olhos de Jesus depois de ele o ter negado três vezes nos faz imaginar o que esses olhos diziam:

"Peter looked up, and as he looked, he saw, up there on the portico of the palace, the Lord turning and looking at him. Yes, in all the assembly, the Lord looked upon Peter. Those eyes! They were the eyes of God." (p. 53)

Por fim, a surpresa, o espanto, que tantas vezes nos escapa, de que um dos bandidos na cruz se convertesse naquela hora em que ver Jesus como Senhor e rei exigia mais fé do que nunca, uma fé que transporta montanhas e as atira no mar, que vê o impossível na ordem do possível. Este episódio é um hino à fé como dádiva da graça divina.

"[The penitent thief] could see only a man impaled on a dagger of wood, stripped of clothing, dignity, and earthly power, marred by stripes and thorns; rendered helpless by nails, ropes, and a wooden pin; forsaken by His disciples and rejected by a people who might conceivably have qualified as subjects of the 'kingdom'; yapped at by the leaders and their followers; scorned, ridiculed, reviled; suspended between heaven and earth as though belonging to neither. And yet the thief dared to say, 'This is my Lord and King.' 'Lord, remember me when Thou comest into Thy kindom.' What marvelous insight! What towering faith!" (pp. 86-7)

A resposta de Jesus não podia esperar:

"Today, as soon as thy soul leaves its earthly tabernacle, 'thou shalt be with Me in paradise.' I promise this. I certify it with a 'Verily.' Wouldest thou ask for more? To be with Me is paradise. Paradise does not extend higher or wider or deeper or farther than that."  (p. 90)


Ler literatura portuguesa em inglês


Por vezes releio literatura portuguesa em tradução inglesa. Duas razões: de vida repartida entre quatro cidades (até há pouco tempo cinco) e dois continentes, nem sempre sei onde estão os pertences que me interessam num dado momento ou tenho acesso fácil a eles. Mas também há esta razão: por vezes acomete-me uma curiosidade irreprimível de ver como determinados textos foram traduzidos. A primeira razão foi o que me fez ler a tradução de Jethro Soutar e Annie McDermott (Dalkey Archive, 2017) de A Cidade de Ulisses (Sextante, 2011) de Teolinda Gersão. A segunda é a que me fará ler a tradução de Margaret Jull Costa (Dedalus, 1994) de A Relíquia (1887) de Eça, que tem estado há meses sobre a mesa à espera de ocasião. Como resistir à tentação de saber como o humor cáustico de Eça, tão dependente do idioma português e da caricatura social, se traduz em inglês? No caso dos poemas do(s) Pessoa(s), como o que transcrevo abaixo, leio-os em tradução pelas duas razões ao mesmo tempo.

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa (2)


I'm not in a hurry. In a hurry for what?
The sun and moon aren't in a hurry; they're right.
To hurry is to suppose we can overtake our legs
Or leap over our shadow.
No, I'm not in a hurry.
If I stretch out my arm, I'll reach exactly as far as my arm reaches
And not half an inch farther.
I touch where my finger touches, not where I think.
I can only sit down where I am.
This sounds ridiculous, like all absolutely true truths,
But what's really ridiculous is how we're always thinking of
    something else,
And we're always outside it, because we're here.

(de Poemas Inconjuntos; trad. Richard Zenith)

Citação da Bíblia 3: Judas Macabeu


It is easy for many to be hemmed in by few, for in the sight of Heaven there is no difference between saving by many or by few.

1 Macabeus 3:18 (Revised Standard Version)

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa


Hoje o Facebook relembra-me de um poema que partilhei neste dia há três anos.

Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.

Alberto Caeiro tem sido talvez o Pessoa que mais atrai a minha atenção. O seu humor despretencioso não será a menor das razões.

Quando me perguntam se Portugal fica no hemisfério sul


Clique na imagem.

Citação 13: Sherlock Holmes


'My dear fellow,' said Sherlock Holmes as we sat on either side of the fire in his lodgings at Baker Street, 'life is infinitely stranger than anything which the mind of man could invent. We would not dare to conceive the things which are really mere commonplaces of existence. If we could fly out of that window hand in hand, hover over this great city, gently remove the roofs and peep in at the queer things which are going on, the strange coincidences, the plannings, the cross-purposes, the wonderful chains of events, working through generations and leading to the most outré results, it would make all fiction with its conventionalities and foreseen conclusions most stale and unprofitable.'

Sir Arthur Conan Doyle, "A Case of Identity," The Adventures of Sherlock Holmes, 1892

Joana Vasconcelos em Miami


Obra fruto da recente colaboração de Joana Vasconcelos com Roche Bobois estará exposta no Art Basel Miami, nos próximos dias 5-8 de Dezembro.

Em antevisão à renomada mostra, JV estará 45 minutos à conversa com Brian Kelly, crítico do Wall Street Journal, no dia 2, a partir das 11h15, no Pérez Art Museum Miami. A conversa será seguida de exibição das seis obras. O evento é exclusivo para assinantes do jornal. 

Roche Bobois, uma das líderes mundiais no design de mobiliário e acessórios domésticos de alta gama, cedeu ao kitsch. É pena. Como se pode ver na brochura, as peças da companhia parisiense ficam desprovidas de apelo estético quando se dão às vistas assim pobremente adornadas.

Jorge de Sena / A Força das Coisas


No início deste mês, no dia 2, pelo centenário do nascimento de Jorge de Sena, Luís Caetano passou no seu programa na Antena 2, A Força das Coisas, a estrevista de Leite de Vasconcelos a Jorge de Sena para a Rádio Moçambique, em 1972, produzida por Manuel Tomaz. Vale a pena ouvir e guardar.

Emily Dickinson: "Much madness is divinest sense"


Much madness is divinest sense
To a discerning eye;
Much sense the starkest madness.
'T is the majority
In this, as all, prevails.
Assent, and you are sane;
Demur, – you're straightway dangerous,
And handled with a chain.

Postal (2): Jacob Jordaens / Selo



Postal comprado no museu do Louvre de Abu Dabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, inaugurado em 2017, fruto de cooperação entre a cidade e o governo francês. A pintura reproduzida, O Bom Samaritano (1615-16), é de Jacob Jordaens (1593-1678), pintor barroco da Antuérpia, e pertence agora ao museu. 

Pode-se ver a história e uma interpretação da pintura na página da londrina Stair Sainty Gallery (aqui), que, segundo parece, embora a informação neste ponto seja lacunar, a adquiriu na Polónia e, mais tarde, a vendeu ao museu.


Quem me enviou o postal andava num périplo pelo oriente e, como se pode ver, o postal acabou por ser espedido da Tailândia. É assim uma lembrança dois-em-um.

A caminho do Missouri (2)




31 de Outubro. Dia de Halloween perfeito. O tempo estava tão miserável em Chicago que não temi ficar em casa. Vento, frio, neve, a primeira do ano, pelo menos no meu bairro. Decerto não seria importunado por trick-or-treaters, são sempre uma maçada. Não fiquei em casa porque tive de ir ao coração do Missouri, novamente. Adoro a estrada, particulamente este trecho da U.S. Route 54, à saída de Atlas, uma pequena localidade perto da fronteira de Illinois com a cidade de Louisiana, no Missouri, do outro lado do Mississippi. Perdi a conta ao número de vezes que fiz  viagem semelhante. Mas tenho a certeza de que, por esta rota, fui apenas quatro vezes.

Sempre notáveis são as cores do Outono no Midwest, que atingem o pico nesta altura. É pena que a distância não permita fazer-lhes justiça.

Suzanne Vega: Tom's Diner



Canção com história interessante. Escrita em 1981 ou 1982, inspirada numa visita ao restaurante do bairro onde a cantora vivia, foi estreada em 1984 e integrada no seu segundo álbum, Solitude Standing (1987). Embora tenha sido escrita para ser acompanhada ao piano, as suas primeiras aparições foram à capela. A canção foi popularizada pelo grupo britânico de música electrónica DNA, que a transformaram numa faixa de dança (aqui). A versão original também é conhecida por ter sido a primeira canção a ser convertida em formato MP3.